Plantas que desafiam o sal
Rafael Oliveira
Rafael Oliveira
| 27-11-2025
Equipe de Natureza · Equipe de Natureza
Plantas que desafiam o sal
Já caminhou por uma praia e percebeu como as plantas parecem se agarrar à terra, crescendo mesmo nas condições salgadas e ventosas próximas ao oceano?
Não é só uma vista agradável — essas plantas estão prosperando em um dos ambientes mais difíceis da Terra.
Áreas costeiras, onde a água salgada do mar toca constantemente a terra, representam um grande desafio para a maioria das plantas. O sal pode danificar as células vegetais, desidratá-las e limitar a absorção de nutrientes. Mas algumas plantas encontraram maneiras não apenas de sobreviver, mas também de florescer nesse habitat salgado. Como elas fazem isso?
Vamos explorar as fascinantes adaptações que permitem que plantas costeiras tolerem altos níveis de sal.

1. Saltolerância: um salva-vidas para plantas costeiras

A chave para entender a sobrevivência das plantas costeiras é a tolerância ao sal. O sal pode ser tóxico para a maioria das plantas e, quando se acumula no solo ou na água, pode impedir que absorvam água corretamente. As plantas costeiras desenvolveram maneiras únicas de lidar com esse sal ou até mesmo usá-lo a seu favor.
A tolerância ao sal se manifesta de várias formas. Algumas plantas conseguem excluir o sal filtrando-o nas raízes, enquanto outras podem armazená-lo em células especiais ou expeli-lo pelas folhas. Vamos olhar mais de perto essas estratégias;

2. exclusão: filtrando o sal

Algumas plantas costeiras são seletivas quanto à água que absorvem. Essas plantas evoluíram para excluir o sal de seu sistema, permitindo que apenas água doce seja absorvida. As raízes dessas plantas funcionam como um filtro, deixando a água passar, mas bloqueando a maior parte do sal.
Esse método ajuda a impedir que as plantas absorvam níveis tóxicos de sal que poderiam danificar suas células. Um excelente exemplo disso é o mangue. Os manguezais são encontrados em áreas costeiras e possuem raízes especializadas conhecidas como aerênquima, que ajudam a excluir o sal.
Essas raízes são envolvidas por uma camada espessa de tecido que atua como barreira, impedindo a entrada de sal no sistema da planta, mas permitindo a passagem de água. Esse sistema de filtragem inteligente é uma das razões pelas quais os mangues prosperam em ambientes salinos e sujeitos às marés;

3. armazenamento de sal: um refúgio seguro

Outra adaptação de algumas plantas costeiras é o armazenamento de sal. Em vez de tentar excluir totalmente o sal, algumas plantas o absorvem e armazenam em partes específicas, como folhas, caules ou vacúolos (bolsas de armazenamento dentro das células).
Essa estratégia permite que a planta sobreviva em ambientes salgados sem prejudicar suas funções vitais. Por exemplo, o saltbush (Atriplex) é conhecido por absorver altos níveis de sal. Depois que o sal se acumula nas folhas, a planta pode simplesmente descartá-las, eliminando o excesso de sal enquanto mantém o restante da planta saudável.
Assim, ela continua a crescer e prosperar no solo salgado, desde que descarte periodicamente a carga salgada;

4. excreção de sal: eliminando o excesso

Algumas plantas costeiras vão ainda mais longe, desenvolvendo a capacidade de excretar o sal de seus tecidos. Esse processo envolve o uso de glândulas ou células especializadas nas folhas para liberar o excesso de sal no ambiente, muitas vezes por pequenos poros.
Isso permite que a planta mantenha seu equilíbrio interno e evite os efeitos nocivos de sal em excesso. Um ótimo exemplo dessa estratégia é encontrado em gramíneas de água salgada como Spartina. Essas gramíneas crescem em zonas entre marés, onde estão frequentemente expostas à água salgada.
Para lidar com o sal, as plantas de Spartina desenvolvem glândulas especializadas que secretam o sal, mantendo os sistemas internos intactos. Com o tempo, essas plantas se adaptaram para prosperar em ambientes onde outras morreriam;

5. suculência: armazenando água no sal

Algumas plantas costeiras, especialmente em zonas costeiras mais áridas, também se adaptam tornando-se suculentas. Isso significa que conseguem armazenar água em folhas, caules ou raízes, permitindo lidar tanto com alta salinidade quanto com períodos de seca.
Essas plantas costumam ser espessas e carnudas, armazenando grandes quantidades de água para períodos secos. A couve-do-mar (Crambe maritima) é um exemplo. Suas folhas grossas e carnudas armazenam água e nutrientes, tornando-a altamente resistente tanto ao sal quanto à seca.
Essa capacidade de reter água ajuda a planta a sobreviver em áreas costeiras adversas, onde a água doce é escassa, mas a água salgada é abundante;

6. sistemas radiculares: adaptando-se aos solos costeiros

Plantas costeiras também possuem sistemas radiculares especiais que lhes permitem prosperar em solos salgados e, às vezes, instáveis. Essas raízes não apenas filtram o sal, mas muitas vezes se aprofundam no solo, proporcionando estabilidade em areias móveis ou terra solta.
Algumas plantas, como o ervilhão-da-praia (Lathyrus japonicus), têm raízes longas e profundas que alcançam camadas abaixo da zona afetada pelo sal. Isso permite acessar água doce mais profunda, evitando a salinidade da superfície.
Por outro lado, plantas como a verbena-da-areia (Abronia spp.) se adaptaram espalhando suas raízes amplamente sobre o solo raso e salgado, estabilizando-se enquanto absorvem a pouca água disponível;
Plantas que desafiam o sal

7. como essas adaptações beneficiam os ecossistemas costeiros?

As estratégias de tolerância ao sal das plantas costeiras são essenciais não apenas para sua sobrevivência, mas também para a saúde de ecossistemas inteiros. Essas plantas formam a base dos ecossistemas costeiros, criando habitats para diversas espécies, incluindo aves, insetos e pequenos mamíferos.
Mangues, saltbushes e gramíneas marinhas, por exemplo, ajudam a prevenir a erosão costeira, estabilizar dunas de areia e filtrar a água, tornando-se indispensáveis para o meio ambiente e os organismos que dependem desses habitats.
Além disso, muitas dessas plantas fornecem alimento e abrigo para a fauna, apoiando a biodiversidade em alguns dos ecossistemas mais frágeis da Terra. Plantas costeiras também ajudam a purificar a água, filtrando poluentes, desempenhando papel crucial na manutenção de ambientes costeiros saudáveis;

8. conclusão: uma maravilha da natureza

As plantas costeiras são um exemplo perfeito da capacidade da natureza de se adaptar a condições extremas. Seja excluindo o sal, armazenando-o ou simplesmente eliminando-o, essas plantas desenvolveram uma série de estratégias fascinantes para sobreviver e prosperar em alguns dos ambientes mais severos da Terra.
A habilidade de viver em habitats salgados, onde a maioria das plantas pereceria, demonstra a engenhosidade e a resiliência da natureza. Na próxima vez que caminhar pela praia ou visitar um pântano costeiro, reserve um momento para apreciar essas plantas incríveis e as formas notáveis como se adaptaram para prosperar em condições salgadas.
Sua sobrevivência não é apenas uma questão de sorte — é um testemunho do poder da adaptação no mundo natural.